Sangue no litoral

Em um galpão na Praia do Morro, Guarapari (ES), Rodrigo Aragão e sua equipe da Fábulas Negras, começam a pré-produção de seu mais novo e ambicioso projeto: O Cemitério das Almas Perdidas. O diretor, nascido e criado na cidade, havia acabado de lançar A Mata Negra no Fantaspoa – maior festival de cinema fantástico da América Latina – em Porto Alegre, apenas três semanas antes de me conceder a entrevista em seu local de trabalho e já estava cercado de máscaras, miniaturas e estátuas. “O anjo fica ali no topo”, disse apontando para um dos cenários montados pela equipe, o morro de um cemitério, enquanto fazia um rápido tour pelo galpão.

Com orçamento de aproximadamente R$ 2.100.000, advindo do Fundo Setorial de Audiovisual da Ancine, o diretor revela que o sonho do projeto é antigo. “Comecei a escrever em 2002, a logo da produtora vem dali – um casarão num penhasco. Quero utilizar muitos recursos que nunca pude, como o chroma key, por exemplo, mas devo usar o mínimo de computação gráfica.”

Se voltarmos dez anos no tempo, a situação era bem diferente. Seu primeiro longa-metragem, Mangue Negro (2008), trazia uma infestação de zumbis no mangue no bairro de Perocão, ali mesmo em Guarapari. O filme teve um orçamento “modesto” de R$ 60 mil, mas já continha que o cineasta mais ama: o regionalismo. Brinquei com o fato de ter ouvido um dos personagens usar a gíria “toxo” – típica de moradores da cidade – e imediatamente saber que se tratava de um filme local.

Para Aragão, uma das características mais interessantes no cinema brasileiro é justamente a diversidade de estilos proporcionadas pelo regionalismo. “Dos diretores brasileiros, eu gosto muito do Halder Gomes, de “Cine Hollyúdi” e “O Shaolin do Sertão”. Gomes é originário de Fortaleza (CE), e ambos os filmes se passam no Nordeste. “Acho o regionalismo bem importante, se quiser ser universal, seja regional”, revela Aragão.

Rodrigo leva no currículo mais quatro longas: A noite dos chupacabras (2011), Mar Negro (2013), As Fábulas Negras (2015) e A Mata Negra (2018), com lançamento previsto para o ano que vem e, se tudo der certo, dessa vez no cinema. Com o orçamentos de, respectivamente, 140, 260, 216 e 638 mil, o último, sendo o primeiro sem o “apadrinhamento” de Hermann Pidner, empresário e amigo do cineasta. O financiamento também veio do Fundo Setorial Audiovisual.

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Filme ganhou na categoria “Melhor Criatura”, no festival Montevideo Fantástico, no Uruguai.

A protagonista do filme, Clara, é interpretada pela filha do diretor, Carol Aragão. Na trama, sequência de Mar Negro (2013), a jovem tenta reviver o amado com o livro amaldiçoado de Cipriano, liberando um “mal inominável”. Todos os filmes do diretor se passam no mesmo universo. O livro é também aparecem A Noite dos Chupacabras (2011) e em O Cemitério das Almas Perdidas, Aragão mostrará como o livro chegou ao Brasil.

Começo de carreira

Nascido em 1977, filho de um ex-mágico e dono de cinema, Rodrigo Aragão desenvolveu desde cedo seu gosto por maquiagem e efeitos especiais, brincando com o que tinha em mãos, como guardanapos e trigo. Em 1984 – na época, com sete anos de idade – assistiu ao making of de Star Wars: O Império Contra-Ataca (1980) no SBT e definiu o momento como um dos mais marcantes na sua jornada. “Minha principal influência é a década de 80. Lobisomem Americano em Londres, A Volta dos Mortos Vivos, A Morte do Demônio. Meus heróis são caras como Sam Raimi, Peter Jackson e Steven Spielberg”.

Seus primeiros trabalhos profissionais vieram na década seguinte, em 1994, com um curta metragem chamado a Lenda de Proitner e Vampicida, de 1996, cuidando dos efeitos visuais de ambos. Sua primeira experiência como diretor foi com Mausoléu, uma espécie de espetáculo de terror itinerante que foi de Guarapari até Salvador, passando por Belo Horizonte e Contagem – pequeno município no interior de Minas Gerais. Além disso, dirigiu três curtas metragens: Peixe Podre, Peixe Podre 2 e Chupacabras.

“Esses dois primeiros – curtas – eu nem contabilizo, mas eles existiram. São filmes muito precários, minhas primeiras experiências. Desses três, o melhorzinho é o Chupacabras e ele só custou R$ 300”, revela ao ser lembrado sobre as primeira produções.

Sobre seus filmes

Quando perguntado sobre a definição do cinema “trash”, Aragão é enfático: é falta de orçamento. “Tem muitos elementos da receita “trash” que eu utilizo nos meus filmes, como o exagero, o humor e o excesso de sangue, mas se o que eu fizesse fosse “trash”, eu não levaria três anos em um projeto. Eu sempre tento fazer o melhor que eu posso com o que tenho”.

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A atriz Carol Aragão, filha do cineasta, como a personagem Clara, em “A Mata Negra”.

O diretor afirma que se encaixa mais no gênero “splatter”, com filmes sanguinolentos, mas com um “quê” de fantástico, citando novamente A Volta dos Mortos Vivos (1985), Lobisomem Americano em Londres (1981) e A Noite do Arrepio (1986) como exemplos e referências pessoais.

Na produtora – criada em 2005, época em que começou a produzir Mangue Negro – Aragão faz de tudo: escreve o roteiro, cuida dos efeitos práticos e também dirige. “Eu acho que cinema, acima de tudo, é entretenimento. Quando eu escrevo, penso sempre numa montanha russa, planejo criar várias reações. Quero o suspense, medo, susto, a risada. Eu gosto do que chamo de “filme-válvula”, no qual a pessoa sai do cinema totalmente relaxada após ter sentido várias emoções”.

Para Aragão, filme de terror sem sustos é “igual rock n’ roll sem guitarra”. Perguntei qual era sua opinião em relação ao termo “pós-horror”, cunhado no The Guardian, pelo jornalista americano Steve Rose. “Respeito todos os estilos de horror, mas não gosto desse termo. Por todas as características atribuídas ao gênero, defino como suspense. Normalmente o “pós” é usado para negar o que veio antes, e isso é meio pretensioso”, revelando seu descontentamento com a vergonha que alguns diretores tem do gênero, omitindo alguns elementos que considera divertidos, como o próprio susto.

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Aragão, ao lado de José Mojica, o Zé do Caixão, nos bastidores de “As Fábulas Negras”.

Aragão afirma que existe mercado para o terror no Brasil, usando como exemplo bilheterias de It: A coisa (2017), e Annabelle 2 (2017). “Acho que o terror brasileiro vive um momento sem precedentes. Quando lancei Mangue Negro, em 2008, mais dois longas marcaram o ano, Encarnação do Demônio – de José Mojica – e A Capital dos Mortos. Hoje, a maioria das produtoras tem algum projeto de terror”.

Mal Nosso (2017) de Samuel Galli e As Boas Maneiras (2018) de Juliana Rojas e Marcos Dutra, são alguns dos projetos elogiados por Aragão. “Esses dois filmes ganharam muitos prêmios fora do Brasil e, muitas vezes, nossos filmes precisam receber flores lá fora para serem bem vistos por aqui”.

Uma de suas maiores decepções com o cinema brasileiro é a falta de momentos heroicos protagonizados pelos personagens. “Em Aliens (1986), quando a rainha alienígena está prestes a atacar a menina (Newt), uma porta se abre e de lá sai a Ripley montada em uma empilhadeira e gritando “tire as mãos dela, sua vadia”. Nesse momento eu vi o cinema ir abaixo. Nunca tinha visto uma plateia aplaudir um filme. ”

Aragão revela que essa é a sensação que ele busca em seus filmes. “Aliens me ensinou que é muito legal ver um personagem dando porrada num monstro de borracha”.

Eu concordo.

 

Matéria produzida para o blog “Backstage”, projeto de TCC do curso de jornalismo da Universidade Vila Velha, 2018. 

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