Os Imperdoáveis e o peso da violência

Décadas após o fim do apogeu do western norte-americano, Clint Eastwood voltava pela última vez ao gênero que o consagrara, dessa vez, carregando consigo toda a experiência por detrás das câmeras. Longe do maniqueísmo dos tempos dourados, o clássico de 1992 estuda a natureza violenta do homem e as suas consequências.

Na trama, William Munny (Clint Eastwood), um ex-fora da lei, passa o restante de sua vida pacata criando porcos com a ajuda dos filhos, ambos crianças. O velho não leva jeito para a vida de fazendeiro e boa parte de seus porcos estão doentes. Munny é então aproximado por um jovem pistoleiro autointitulado Schofield Kid (Jaimz Woolvett), buscando sua ajuda para coletar a recompensa por dois vaqueiros acusados de desfigurarem uma prostituta. O garoto, que ostenta o fato de ter matado vários homens, fica desapontando com a figura pouco intimidadora de William Munny que, segundo seu tio, “era o pior criminoso que ele havia conhecido; em outras palavras, o melhor”, ou algo nessas linhas.

Schofield Kid representa o saudosismo a outrora e a glorificação da violência – um traço presente não apenas no cinema, mas na sociedade americana – e, pelo visto, no Brasil também. Na tentativa de convencer o velho a voltar a ativa, o jovem exagera no motivo pelo qual os vaqueiros estão com a cabeça à prêmio. Ao invés de cortes no rosto da jovem, na história de Schofield, a garota teve os olhos, orelhas e seios cortados. Apenas desculpas para justificar sua própria violência e ter a chance de testemunhar a terrível – e tentadora – faceta do velho pistoleiro.

Munny afirma ser um homem mudado devido a ajuda de sua finada esposa. “O uísque fez a maior parte”, revela ao jovem, culpando a bebida pelo seu passado desonroso. Schofield Kid vai embora, lembrando-o de que a proposta continua de pé. Munny, eventualmente, decide ir atrás do garoto, tira seu antigo revólver da gaveta – e descobre que sua mira está horrível – e mal consegue montar em seu cavalo. Seus dias de glória claramente ficaram para trás, mas o velho pistoleiro permite-se voltar a matar, convencendo-se da boa causa – a justiça para a jovem e as necessidades de seus filhos.

William Munny consegue persuadir seu antigo parceiro, Ned Logan (Morgan Freeman) a se juntar à caçada, esperando contar com suas lendárias habilidades com a espingarda. Ned, assim como Munny, há décadas longe da vida bandida, aceita a proposta do amigo – talvez pelo dinheiro, ou em uma tentativa de reviver os tempos de glória.

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Eastwood e Freeman.

Oposto aos homens está Little Bill (Gene Hackman), o xerife da cidadezinha na qual a prostituta foi atacada. Bill condena a cafetina por emitir a recompensa e atrair o que ele considera ser o pior tipo de escória para o povoado. Um dos primeiros a chegarem é English Bob (Richard Harris), um lendário pistoleiro que é recebido com agressividade por Little Bill, que o espanca em público, humilhando- o e desmentindo todas as histórias mirabolantes que sustentavam o status de lenda de English Bob. O criminoso é banido da cidade depois de uma noite na cadeia. Lançando maldições ao vento, patético e impotente, ele é apenas um mortal vivendo de memórias distorcidas.

Na companhia de Schofield Kid, Munny e Ned posicionam-se no topo de um barranco para matar um dos vaqueiros da recompensa. Ned, outrora um exímio atirador, não tem coragem de puxar o gatilho, e entrega, envergonhado, a arma para Munny, que acerta o homem na barriga. Mais alguns tiros errados e o homem consegue se esconder atrás de uma pedra. Não há glamour ou senso de justiça e heroísmo. A morte é lenta e desagradável, os protagonistas são forçados a ouvir os prantos desesperados do homem enquanto esperam sua morte. O segundo vaqueiro morre de maneira ainda menos honrosa, sentado em uma privada, covardemente alvejado por Schofield Kid.

Tendo visto a verdadeira face da violência e a frieza com a qual Munny estava familiarizado com a mesma, o garoto revela nunca ter matado alguém antes. Sentindo o sangue em suas mãos, jura nunca mais tocar em uma arma e contentar-se com a vida dura, porém honrada, do trabalhador comum. A realidade o acerta como um soco no estômago. William Munny, antes, seu ídolo, agora era visto com repulsa e medo. Ele representava tudo aquilo que um homem decente não deveria se tornar. Aqui, o ato de matar sempre deixa marcas.

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Gene Hackman, como Little Bill Daggett.

Little Bill, por sua vez, um ex-criminoso como os protagonistas, vê em sua nova profissão uma maneira de se redimir de seus erros do passado, castigando severamente os fora da lei. A grande ironia aqui é que Little Bill é tão violento quanto os criminosos, se não, pior. Com uma postura auto indulgente, Bill extravasa toda a sua violência torturando Ned até a morte, o que, em sua concepção, é totalmente justificável por estar do lado certo da lei e, supostamente, defendendo o interesse do povo de bem. Mais uma vez, o filme desmistifica figuras clássicas não apenas do western, mas de Hollywood: o homem da lei como um ser justo e incorruptível.

Munny, ao descobrir sobre a morte de Ned, decide se vingar do xerife. Abastecido por alguns goles de uísque, Munny vai até o bar da cidade, encontrando o corpo do amigo exposto como um prêmio em um caixão. Ao entrar no estabelecimento, atira no dono à sangue frio. Após um tiroteio desesperado, Munny sai vitorioso pela calma mantida e acerta Little Bill. Mais alguns goles de uísque e o pistoleiro percebe a movimentação do xerife moribundo. Chutando a arma para longe do velho, Munny aponta o cano da espingarda para Bill, que diz não merecer aquilo. “Merecer não tem nada a ver com isso”, afirma Munny, antes de dar o tiro de misericórdia.

Homens como Munny merecem morrer, da mesma maneira que suas vítimas inocentes não mereciam a morte, mas a vida não é justa. Nesse retrato realista de Eastwood, não há apenas preto e branco, mas tons de cinza que cobrem a moralidade humana. Munny e Little Bill são imperdoáveis, pelas coisas que fizeram e que continuam a fazer, independentemente do lado da lei que estejam.

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Munny e a espingarda de Ned levam a vingança aos pés de Little Bill.

Munny, apesar de ter feito o que fez por dinheiro, trouxe algum tipo de justiça distorcida para as prostitutas da cidade, mesmo que para isso tenha destruído tudo em seu caminho. Little Bill, que deveria proteger os cidadãos, deixou os vaqueiros saírem ilesos ao agredirem à prostituta, mas torturou Ned até a morte e em seguida foi beber como se nada tivesse acontecido. A violência deixou rastros, e o preço, em ambos os casos, foi cobrado de alguma forma.

Todos se veem como heróis em suas próprias histórias, justificando suas ações para manter-se sãos. Talvez, Little Bill, apesar de sua violência, não merecesse morrer – afinal, o homem que ele matou era um assassino renomado – mas, para Munny, nada disso importava. Aquilo era apenas vingança. Violência como uma forma de externalizar as emoções. Uma ação cruel, mas intrinsecamente humana. Diferente de Little Bill, Munny sabe que não é o herói e aceita sua real natureza egoísta e violenta. Ele pega o seu pagamento e simplesmente vai embora com suas crianças, provavelmente sabendo que um dia o destino poderá bater em sua porta para cobrar as dívidas de seu passado imperdoável.

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