Alien e gênero

Alien (1979) não é um filme de terror convencional. Na época de seu lançamento, o gênero tinha como maiores expoentes os chamados “slashers” – filmes sobre psicopatas sedentos por sangue jovem – O Massacre da Serra Elétrica (1974) e Halloween (1978). Jamie Lee Curtis – que interpreta a protagonista de Halloween, Laurie Strode – alcançaria a fama como a “scream queen” definitiva do horror, ou seja, uma protagonista habilidosa na arte de gritar histericamente.

Era de se imaginar que Alien seguiria a fórmula de seus contemporâneos, apresentando um grupo de personagens sendo lentamente massacrados um a um por um inimigo quase sobrenatural. Bem, isso realmente acontece. Todos sucumbem à incompetência e decisões infelizes, menos uma pessoa: Ellen Ripley.

Considerada até um hoje um ícone feminista, Sigourney Weaver era uma atriz desconhecida na época do lançamento de Alien, creditado como o seu terceiro trabalho no cinema e o primeiro com algum grau de protagonismo. Era de se esperar que Tom Skerrit, intérprete de Dallas, capitão da nave comercial Nostromo, fosse o protagonista da trama. Ora, Skerrit já trazia consigo uma quantidade considerável de trabalhos na televisão e no cinema, e os produtores se apoiariam em sua credibilidade para vender o filme – ele até aparece em primeiro nos créditos iniciais.

Mas o diretor Ridley Scott e os roteiristas Dan’O Bannon e Ronald Shusett estavam mais interessados em subverter os clichês do horror. Ripley é uma personagem forte, racional e não tem medo de confrontar seus colegas de equipe, quando necessário. Isso por si só já faz de Ripley uma das maiores heroínas do cinema – junto da Princesa Leia e Sarah Connor – indo contra o que se espera de personagens femininas em universos fantásticos: sentimentalismo exagerado e estupidez. Ripley não só subverte as expectativas como é a única da nave a tomar as decisões corretas.

Kane, interpretado pelo finado John Hurt, enfia o rosto na frente de um ovo alienígena em um planeta inóspito. Dallas, decide contrariar as ordens de Ripley – no momento, a oficial com patente mais alta na nave – de trazer Kane para dentro da nave com o alienígena preso no rosto, sem passar pelo procedimento de quarentena, o que leva à morte de todos da tripulação. O filme questiona, sim, os papéis estipulados para homens e mulheres no gênero. Lambert, a única outra mulher da tripulação simboliza exatamente o estereótipo feminino no horror. Ela só reclama, grita e tem sua opinião ignorada por todos. Basicamente, a antítese de Ripley.

Porém, o que mais chama atenção na produção de Alien, é o fato de que os personagens foram, inicialmente, concebidos sem um gênero definido no roteiro. Ripley só se tornaria uma mulher com a entrada e Sigourney Weaver no projeto, mas o reflexo da escolha dos roteiristas ainda pode ser percebida no filme pelas jaquetas unissex e o uso apenas de sobrenomes entre a tripulação da Nostromo.

O gênero dos personagens em nada afeta a progressão da história, com os atores podendo ser facilmente trocados por colegas do gênero oposto. Homens e mulheres cometem erros da mesma forma. Ripley não sobrevive por ser uma mulher, mas, sim, por ser o membro mais competente da equipe. Entretanto, é inegável que a personagem apresente traços comumente associados a homens, como o fato de ser arrogante e mandona. Isso só mostra o quão bem escrita é a personagem. Ela não é perfeita, apesar de várias qualidades, Ripley também tem defeitos, indo muito além do que conservadores podem considerar como propaganda feminista.

Mas isso nos leva à outra questão: uma personagem feminina só pode ser considerada forte caso apresente traços ditos “masculinos”? Recentemente, James Cameron, diretor da sequência de 1986, Aliens, criticou, em entrevista ao The Guardian, o sucesso de Mulher Maravilha (2017). Para o cineasta, o filme é um retrocesso na representação feminina no cinema, tendo como protagonista uma heroína sexualizada, citando a personagem criada por ele em O Exterminador do Futuro (1984) e O Exterminador do Futuro: O Julgamento Final (1991), como um exemplo de personagem feminina forte. “Ela não era um ícone de beleza, era uma mulher problemática, uma mãe terrível e conquistou o respeito da audiência através de sua coragem”, afirma Cameron.

A diretora, Patty Jenkins, rebateu os comentários do cineasta, afirmando que o mesmo não entendeu o que a Mulher Maravilha simboliza para as mulheres do mundo. “Se mulheres sempre precisarem ser duronas e problemáticas para serem consideradas fortes, então não somos livres para sermos multidimensionais ou admirarmos um ícone mundial só porque ela é bonita e carinhosa”.

É importante salientar, para aqueles não familiarizados com Sarah Connor, que a personagem não apresenta traços femininos, muito pelo contrário, ela é bem “masculina”. Vestindo-se com um traje quase militar por cima de um corpo atlético, além do mal humor e a tendência à agressividade. Essa é a única definição de força em uma personagem na opinião de Cameron?

Emilia Clarke, que interpreta a poderosa Daenerys, no seriado Game Of Thrones, pediu para que parassem de chamar sua personagem de “mulher forte”, diferenciando-as do restante das personagens femininas que, por sua vez, seriam fracas por natureza. Apesar disso, ela reconhece na entrevista que mulheres não têm as mesmas oportunidades que os homens em relação a feitos heróicos, logo, quando personagens femininas se encontram em posição de poder, chamam muita atenção.

Não cabe a James Cameron – e muito menos a mim – definir o que significa ser mulher ou a forma como as mesmas devem ser representadas no cinema e na televisão. As pessoas têm diferentes qualidades, e o que é considerado “força” em alguém, provavelmente não será o mesmo em outros. Entre, supostamente, os opostos da masculinidade de Sarah Connor e a beleza da Mulher Maravilha, Ellen Ripley aparece como uma personagem que não se limita a convenções de gênero, mostrando como papéis desempenhados por mulheres podem ser tão complexos quanto qualquer outro, desde que sejam levadas a sério.

 

Texto produzido para o blog “Backstage”, projeto de TCC do curso de jornalismo da Universidade Vila Velha, 2018. 

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