Os Últimos Jedi é decepcionante

Sim, é verdade, Os Últimos Jedi (2017) é um filme decepcionante, mas é bom, muito bom. Após dois anos de especulações e teorias mirabolantes como viagens no tempo e Rey sendo a filha perdida de Jar Jar Binks, as respostas dadas pelo diretor, Rian Johnson, são bem menos emocionantes. O que nos leva ao x da questão: as expectativas estragaram o filme?

Ora, quase estragaram o filme para mim. Eu que, hoje, sou um de seus mais ávidos defensores, mas de quem é a culpa, então? Dos fãs fervorosos e sua imaginação fértil, o cliffhanger deixado por Abrams no episódio VII ou a displicência do novo diretor? Uma mistura de tudo? Acredito na última opção.

Para entender melhor a equação, devemos estabelecer aqui os maiores mistérios não respondidos – intencionalmente, acredito – por J.J Abrams em O Despertar da Força (2015): Como Maz Kanata conseguiu o sabre de Anakin Skywalker – perdido por Luke em Bespin? Aonde estão os Cavaleiros de Ren? Quem é Snoke? Quem são os pais de Rey e porque ela foi deixada em Jakku? Quais serão as primeiras palavras de Luke para Rey ao receber o sabre de volta?

Bom, só aí já havia bastante material para ser explorado em Os Últimos Jedi, e é compreensível que houvesse especulação, ainda mais depois de dois trailers bem ambíguos. Mas o que Rian Johnson faz aqui é subverter totalmente essas expectativas, dando respostas completamente inesperadas, isso quando oferece alguma.

O filme é imprevisível, o que deixou minha experiência bem emocionante. Isso, claro, foi um ponto negativo para aqueles que não ficaram satisfeitos com as respostas dadas, simplesmente por que não era o que esperavam . Há um senso de autoria entre os fãs de, não apenas Star Wars, mas de qualquer grande saga. Sempre vemos comentários como “estragaram minha infância”; “a Disney não entende de Star Wars” e etc. É bom lembrar que esses mesmos comentários foram direcionados aos episódios I, II e III, dirigidos pelo próprio criador, George Lucas, hoje, cultuado novamente por suas viúvas anti-Disney.

Em compensação, nem todas as críticas ao diretor são injustas. Johnson deixa de responder muitas coisas, talvez em uma tentativa de “limpar a casa” depois de Abrams, cortando tudo o que achou irrelevante, ou talvez tudo não passe de parte do planejamento. Devemos levar em consideração de que se trata de uma trilogia pensada desde o início. Claro, cada diretor teve certa “liberdade criativa” – seja lá o que isso significa – mas com Abrams creditado como produtor executivo de Os Últimos Jedi, além da presidente da Lucas Film, Kathleen Kennedy, supervisionando cada projeto de perto, é de se imaginar que haja algum norte e que essas respostas sejam dadas no capítulo final – ou não.

Líder Supremo Snoke

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Extremamente poderoso, mas arrogante, o personagem é derrotado por truque de Kylo Ren.

Mestre de Kylo Ren e líder da Primeira Ordem, o vilão caquético e deformado interpretado pelo brilhante Andy Serkis – divertido e assustador no papel – foi introduzido em O Despertar da Força e nada foi revelado sobre ele em ambos os filmes. A decisão de Johnson de matá-lo no segundo capítulo da trilogia parece uma decisão precipitada, mas quem precisa de um novo Imperador? Snoke serve seu propósito de solidificar Kylo Ren como o vilão definitivo. O único erro do diretor é não contar absolutamente nada sobre o passado do vilão e de como chegou ao poder. Claro, ninguém sabia muito sobre Darth Sidious até os prequels, dezessete anos depois, em A Ameaça Fantasma (1999), mas uma breve menção ao seu passado não faria mal.

Maz Kanata e o sabre de Luke Skywalker 

Talvez o maior “dane-se” dado por Johnson ao que foi estabelecido por J.J Abrams. Tudo bem que talvez a resposta nem fosse tão mindblowing assim, mas simplesmente ignorar totalmente o mistério é de extrema desonestidade com o público. Maz aparece apenas por alguns minutos, através de um holograma, indicando um homem capaz de ajudar a Resistência.

De qualquer forma, a ligação entre Rey e o sabre ainda fica em aberto. Seria apenas um meio que a força encontrou de se comunicar com a nova esperança da galáxia? Para muitos, a ligação indicava o parentesco com os Skywalker, mas isso não rolou…

Cavaleiros de Ren 

Não que eles sejam um mistério que necessite tanta atenção, o incômodo na decisão de Johnson de omiti-los do filme é pelo potencial desperdiçado. Poderiam ser a guarda pretoriana de Snoke, acompanhando Kylo Ren ao castelo de Vader em Mustafar, talvez até mesmo interagindo com o fantasma do finado Sith. Isso poderia acontecer no episódio IX, mas depois do discurso “deixe o passado morrer” de Kylo, dificilmente veremos mais de sua ligação com seu avô.

Quem é Rey?

O maior balde de água fria de Os Últimos Jedi foi, com certeza, a revelação de que Rey não pertence a nenhuma linhagem especial. Não é Skywalker, não é Kenobi e nem neta do Imperador Palpatine (?). Pode parecer anticlimático ou uma tentativa desesperada de ser inovador, mas a decisão faz todo o sentido dentro da proposta do filme. A força não pertence aos Jedi, como afirma Luke na primeira lição de Rey em Ahch-to. Essa energia vital se manifesta de “formas misteriosas”, logo, não é de se espantar que uma mera catadora de sucata tenha esse poder dentro de si, assim como Anakin, que era um escravo – a possibilidade dele ser fruto da influência de Darth Plagueis na força é apenas brevemente mencionada nos filmes.

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Rey aceita, em prantos, que não é ninguém “especial”.

Claro que a propensão à força é hereditária, como visto em Luke e Leia e, posteriormente, Ben Solo – a.k.a Kylo Ren – mas isso não impede de que outras pessoas possam ter um papel importante em Star Wars.

Viúvas das teorias mirabolantes acreditam que Kylo Ren mentiu sobre a identidade dos pais de Rey, mas falham ao esquecer que quem dá a revelação é a própria garota, Kylo apenas a respalda. Mas seria certamente uma possibilidade, ainda mais depois que o ator Simon Pegg, intérprete de Unkar Plutt em O Despertar da Força, revelou que os planos originais de J.J Abrams para Rey eram “especiais” – interprete como quiser.

Abrams voltará para dirigir o capítulo final da trilogia e poderia, sim, alterar a resposta dada por Johnson em Os Últimos Jedi, porém, mudar a revelação sobre os pais de Rey trairia a mensagem do filme de que você não precisa ser de “sangue nobre” para fazer a diferença.

O caso Luke Skywalker 

Calado desde os minutos finais de O Despertar da Força, o herói da trilogia clássica finalmente voltaria à ação. Todos especularam sobre suas primeiras palavras, algo nas linhas de “Oi, filha”, para alguns. Brincadeiras à parte, Rey ser sua filha seria óbvio demais, mas teoria era o que não faltava. Alguns acreditavam que ela foi uma de suas alunas e foi largado por Luke, ou por Han/ Leia – que poderiam ser seus pais – em Jakku para que a menina não fosse tentada por Snoke, que já teria corrompido Ben Solo.

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Luke e o sabre de Anakin Skywalker.

No entanto, Luke não reconhece a garota e sua primeira ação ao receber o sabre é jogá-lo para trás, rejeitando todo o seu significado. A cena em questão foi vista como um insulto à trilogia original e ao personagem de Skywalker, mas devemos aceitar que o personagem mudou nos últimos 30 anos, assim como qualquer ser humano. A rejeição do sabre não me incomoda, apenas não gosto do tom cômico que a cena tomou, com o movimento corporal em si e a caminhada mal-humorada de Luke, deixando Rey com a maior cara de gol contra da história.

O velho Jedi está em uma fase obscura de sua vida. Recluso em Ahch-to, Luke está envergonhado de ter falhado como professor e como tio, tendo criado exatamente o que mais temia – um novo Vader – dando o impulso necessário para que Ben Solo caísse nas mãos de Snoke. Ele não acredita nos Jedi e culpa a arrogância da religião pela ascensão do Império e pela criação do temido Darth Vader.

Rian Johnson apresenta um personagem complexo e multifacetado, e ninguém pode chamá-lo de um “novo mestre Yoda”, para aqueles que temiam que o filme fosse uma cópia de O Império Contra-Ataca (1980). O problema é que esse não é o Luke que os fanboys de Star Wars pagaram pra ver, mas se deixarmos as expectativas de lado, podemos aproveitar a nova proposta.

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Solitário na ilha, Luke remói erros do passado.

Luke Skywalker não é o protagonista dessa trilogia, mas, sim, Rey e Kylo Ren. O velho mestre passou por um evento que o deixou traumatizado, à ponto de não acreditar mais em sua capacidade, fechando-se totalmente à força. Seu arco neste filme tem um propósito diferente.

Muitos acusam uma descaracterização do personagem ao ser tentado novamente pelo lado negro, quando quase sucumbiu ao medo de um novo Vader e cogitou matar seu próprio sobrinho, Ben Solo, em seu sono. “Ele acreditou na redenção de Anakin Skywalker até os últimos instantes, sem se entregar ao ódio”. Ok, mas isso não faz de Luke um santo; ele é um personagem imperfeito, assim como Han Solo ou o seu próprio pai. Ele passaria por novas provações ao longo da vida, principalmente quando o lado negro oferece soluções fáceis e confortáveis para dilemas morais, afinal, suas motivações eram nobres – impedir um novo assassino genocida.

Mas depois uma ótima lição do mestre Yoda sobre a importância de aprender com o fracasso, o velho Jedi usa a força de uma maneira nunca antes vista na saga, projetando-se através da galáxia para enfrentar Kylo Ren, em Crait. Não é covardia, mas, sim, uma maneira inteligente e plausível de inseri-lo na ação, usando a força para se defender, e não para atacar – assim como Yoda o ensinou em Dagobah. Luke se coloca entre Kylo e o restante da Resistência, esquivando-se com elegância dos golpes furiosos de um Kylo Ren desequilibrado emocionalmente, dando o tempo necessário para que os heróis fujam.

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O confronto é contido e emocional, a antítese das batalhas megalomaníacas da trilogia prequel.

Sucumbindo à exaustão, Luke encontra paz e propósito em uma cena linda, observando o pôr-do-sol binário com os olhos em lágrimas. O garoto, que antes olhava para o horizonte ansiando por novas emoções, dá seus últimos suspiros com um sorriso de satisfação no rosto.

Seu sacrifício oferece esperança para a galáxia, garantindo a sobrevivência da nova aliança rebelde e da ordem Jedi, reunidos dentro da Millenium Falcon – mais icônico impossível.

Os temas do filme

A lição de Yoda reverbera uma das mensagens do filme e explica o motivo da inclusão da missão paralela fracassada de Finn, Rose e Poe Damoron de desligar o rastreador da nave de Snoke. Todos são passíveis de fracasso, até mesmo um mestre Jedi, e não devemos fugir de suas consequências, mas, sim, aprender a partir da falha.

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O mestre e o estudante – novamente.

Poe Dameron tomou uma atitude e falhou, e essa experiência é fundamental para solidificá-lo como o novo líder rebelde. A missão também é importante para o arco de Finn e Rose no cassino de Canto Bight. No planeta, vemos como uma pequena parcela da população lucra com o conflito, deixando claro que a manutenção de uma guerra é de interesse de pessoas influentes, dando leves tons políticos ao filme.

Finn, que em O Despertar da Força, e até mesmo neste filme, tinha uma postura egoísta e estava disposto à fugir sozinho com Rey das garras da Primeira Ordem, conclui seu arco de rebeldia iniciado pela renúncia à vida de Stormtrooper, tentando se sacrificar pela resistência.

Resumindo…

Se analisarmos o filme em suas entrelinhas, podemos aproveitar um projeto ambicioso, maduro e que respeita a audiência, apesar de, claro, alguns tropeços no caminho, como a falta de desenvolvimento de alguns personagens, como a Capitã Phasma. Agora cabe à J.J Abrams a missão de amarrar todas as pontas soltas no último capítulo da trilogia, que tem lançamento marcado para 2019. 

Alguns mistérios ainda não foram explorados e decisões infelizes podem ser convenientemente mudadas – fruto de um planejamento inteligente ou da pressão do público – logo, é impossível julgar Os Últimos Jedi como um filme independente. Tudo pode acontecer e ninguém pode acusar o próximo  de ser um “remake” de O Retorno de Jedi (1983), pois a história já tomou rumos completamente diferentes. 

Abrams pode terminar como “o cara que salvou Star Wars”, para aqueles que odiaram Os Últimos Jedi – ou terminar de “destruir” suas infâncias – ou simplesmente como um bom diretor que soube lidar com a enorme pressão de dar um final satisfatório à  primeira trilogia longe das mãos de George Lucas.

Infelizmente, Carrie Fisher, a princesa Leia, não está mais entre nós, e a LucasFilms, prudentemente, informou que não “ressuscitará” a atriz através de computação gráfica, respeitando o seu legado.

Estará sempre conosco, princesa.

“No one is ever really gone” – Luke Skywalker.

 

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