Pelo fim dos rótulos

Existe uma discussão – até bem pertinente, eu diria – sobre a saturação dos filmes de super-herói. De fato, a fórmula está ficando velha, são muitos filmes e poucos os que contém um pingo de originalidade e personalidade. Mas existem, sim, nomes que se sobressaem nesse mar de mediocridade. Pegue por exemplo, o clássico de Christopher Nolan, O Cavaleiro das Trevas (2008) e ponha o frenesi em relação ao Coringa de lado por alguns instantes – há quem atribua o sucesso do filme apenas ao trabalho magistral de Heath Ledger.

A abordagem mais realista, dentro do possível, claro, – afinal, é um homem vestido de morcego – de Nolan é apenas uma das características que fizeram o longa funcionar tão bem, mas é um dos alicerces da proposta do diretor, que se preocupa primeiro em fazer um bom filme, antes de fazer um filme de herói.

Ao meu ver, o maior erro em relação à essas produções – de quem consome e de quem produz – é entender “filme de super-herói” como um gênero, e não como um tema ou premissa. Quais similaridades podem ser apontadas entre a aventura espacial bem humorada de Guardiões de Galáxia (2014), o besteirol de Deadpool (2016) ou o neo western/ road movie de Logan (2017)?

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“You are just a freak, like me”

O Cavaleiro das Trevas foge das amarras do rótulo que limita e subestima a capacidade desses filmes de serem mais do que uma diversão fútil. O longa é, antes de tudo, um “filme policial”, como comumente são chamados e que, por acaso, tem o Batman como protagonista. Nolan se esquiva das convenções e se aprofunda em ideias, mas sem medo de admitir que é um filme sobre um herói de capa preta.

Tendo alcançado o ápice físico e psicológico, Bruce Wayne utiliza seus próprios demônios para provocar medo nos criminosos de Gotham City. Combatendo lunáticos, a corrupção policial e a máfia e as suas ramificações, o Batman de Nolan é um símbolo, uma ideia de que qualquer um pode ser um herói.

Por isso que o Coringa de Ledger funciona tão bem, firmando-se como um dos maiores antagonistas do cinema. Batman confia no caráter do povo de Gotham, e o Coringa, como sua antítese definitiva, deseja mostrar que todos podem ser corrompidos, até mesmo o promotor Harvey Dent, o “golden boy” que, segundo Bruce Wayne, deveria ser o rosto da justiça em Gotham City.

A profundidade temática alcançada por Nolan não deveria ser uma exceção no cinema das adaptações de quadrinhos. Watchmen e A Piada Mortal, ambos de Alan Moore, ou Guerra Civil, de Mark Millar, por exemplo, demonstram o potencial das HQs de super-heróis de oferecerem discussões interessantes.

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A referência em “quadrinhos de adulto”.

Como dito acima, Nolan não tem vergonha de dirigir um filme sobre um herói, por que teria? O material fonte é sensacional e o diretor soube aproveitar o melhor de obras como Ano Um, de Frank Miller, por exemplo. A má fama da capacidade de filmes de herói pode ser reflexo da noção errônea de que quadrinho é “coisa de criança” – noção que veio mudando nos últimos dez anos já que ser “geek” tá na moda.

Quando o material de divulgação de Logan foi visto – algumas imagens em preto e branco, por exemplo – houve um certo receio de que o filme tentasse, desesperadamente, renegar sua origem em uma tentativa de ser “levado a sério” e, quem sabe, até disputar alguns prêmios da academia – que aconteceu, concorrendo à melhor roteiro adaptado.

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A seriedade com a qual o personagem é tratado é um dos maiores méritos do longa.

Ao contrário da expectativa de alguns, o filme reconhece que faz parte de uma franquia Hollywoodiana. Ele menciona os X-Men, mostra outros mutantes utilizando seus poderes e Logan é reconhecido como “O Wolverine”. A diferença aqui é que o diretor James Mangold tem noção do potencial do personagem em decadência para abordar temas como sacrifício, propósito e redenção.

Pseudointelectuais podem tentar diminuir o fato de termos um super-herói como o protagonista  na trama, no intuito de elevar o filme à um patamar de “filme de arte”, que até seria uma atitude louvável – de reconhecer a qualidade do produto – se não fosse uma tentativa de separá-lo de suas raízes, talvez por vergonha de admitir ter gostado de um “filme de super-herói”, como são rotulados.

Parecido com a polêmica do termo “pós-horror”, cunhado por Steve Rose, jornalista do The Guardian, para separar bons filmes de terror do seu próprio gênero, esnobando a relevância cultural e a capacidade do terror em provocar medo sem “jumpscare” – recurso utilizado em excesso por produções genéricas atuais.

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A Bruxa (foto), O Babadook, Ao Cair da Noite são alguns exemplos do tal “pós-horror”.

Existem filmes bons e existem filmes ruins, independentemente do gênero e do material de origem, é tudo uma questão do quanto os estúdios estão dispostos à sacrificar por uma boa história. Não me leve a mal, é possível arrecadar rios de dinheiro e ainda oferecer algo minimamente interessante. Mas para cada Capitão América: Guerra Civil (2016) ganhamos quatro Esquadrões Suicidas.

Adaptar quadrinhos vai muito além de um uniforme fiel, referências óbvias em prol do fanservice ou boas cenas de luta – ok, Zack Snyder? Quem liga se a primeira namorada de Peter Parker não foi a Mary Jane? Ou se ele não utiliza seu lançador de teias? Prefiro um Willem Dafoe inspirado e se divertindo no seu uniforme de Power Ranger verde do que a trama novelesca e desorganizada do reboot de Andrew Garfield – ei, pelo menos a namorada dele é loira!

 

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