Onde estão os filmes de aventura?

Eu sempre gostei da franquia Piratas do Caribe, principalmente do segundo filme, O Baú da Morte (2004) que, até hoje, é um dos meus blockbusters favoritos. Nunca entendi o motivo de o terceiro filme ser tão mal avaliado e, recentemente, depois de ver um ótimo vídeo sobre a falta de filmes de aventura no cinema, resolvi revisitar a trilogia de Gore Verbinski.

Com um pé atrás, pensei que poderia encontrar mais um daqueles filmes que gostamos quando somos mais novos que – devido à um péssimo senso crítico – podem ser salvos por uma boa dublagem e, curiosamente, é o caso dos episódios I, II e III de Star Wars. Para a minha surpresa – ou talvez nem tanto – eu realmente adorei – de novo – os três primeiros filmes dirigidos por Verbinski.

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O grande erro do quarto filme, foi não perceber que Sparrow não funcionava tão bem sozinho.

Comprometido com a diversão, obviamente, mas com uma mitologia bem definida- provavelmente desenvolvida ao decorrer da produção da trilogia, mas quem liga? – e uma dinâmica excelente entre os três protagonistas, os filmes são leves, sem medo de não se levar a sério. Com um cuidado especial em relação ao figurino, maquiagem e um belo misto entre efeitos práticos e computação gráfica, o filme tem um aspecto tangível e orgânico. É possível sentir o mau hálito dos piratas e repulsa pelo limo cultivado nos cantos escuros dos navios. A música épica composta por Hans Zimmer é o toque final no chamado da aventura.

Em outras palavras, esses filmes tem alma.

E alma, nos filmes de aventura, é algo essencial. Claro, não são os únicos capazes de nos convidar à uma entrega total – talvez até escapista – ao seu universo e personagens, afinal, essa é uma das próprias propostas do cinema como arte em si. Mas para alcançar esse nível de engajamento do público, é preciso tornar a experiência mais intimista o possível. Por isso, o grande mérito de filmes de aventura são – ou deveriam ser – os seus personagens. O roteiro não precisa ser muito complexo, mas o espectador precisa se importar com os personagens em um nível pessoal.

Aí mora o maior defeito de grandes lançamentos atuais. É difícil para o público se identificar com super-heróis indestrutíveis combatendo um exército genérico de criaturas de cgi em batalhas pela salvação do planeta terra; ou brutamontes atirando como loucos uns nos outros em câmera lenta.

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Nem todo herói usa capa.

Filmes de aventura, como Indiana Jones, por exemplo, tendem a ter conflitos em uma escala muito menor, como o roubo de um artefato, a busca de um tesouro perdido ou o resgate de uma donzela em perigo. Nessa falta de originalidade em Hollywood, não é a toa que Capitão América: Guerra Civil (2016) tenha feito tanto sucesso de bilheteria e crítica. Jogando de lado a megalomania de filmes como Vingadores, X men: Apocalypse e do mais recente Liga da Justiça, o filme tem um foco preciso: a relação entre os seus personagens.

O banquete visual está lá no filme com a ótima batalha do aeroporto, mas seu clímax ocorre depois, em uma série de reviravoltas que coloca os protagonistas em uma luta mortal carregada de emoção e lições sobre vingança e perdão. Apesar de contar com uma trama política até elaborada – para um filme da Marvel, pelo menos – e um número considerável de super heróis, os irmãos Anthony e Joe Russo sabem que se trata de um filme do Capitão América e dão a merecida ênfase à relação de Steve Rogers com seu amigo, Bucky, acusado de terrorismo e alvo da caçada dos Vingadores.

Essa tendência ao épico não é um problema recorrente apenas nos filmes. Séries de televisão e animes também caem nessa armadilha. Naruto e Dragon Ball, por exemplo, que começaram como aventuras descompromissadas e divertidas, tomaram proporções inimagináveis. Em Dragon Ball, a partir de determinado ponto da “fase Z”, os personagens tinham o poder de destruir o planeta. Em Naruto, outrora sobre ninjas jogando churikens e kunais uns nos outros, o nível das batalhas subiu ao ponto de montanhas serem cortadas ao meio com espadas de chakra gigantescas.

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De jovens correndo pelo vilarejo de Konoha a semideuses salvando o mundo.

Esse problema não acontece por acaso. Em uma tentativa de manter a longevidade do produto, os autores/ editores/ produtores precisam aumentar as apostas para manter o consumidor interessado. Sempre há um outro vilão ainda mais poderoso, logo, nossos heróis precisam tornar-se páreos para o perigo e assim sucessivamente. Um bom entrosamento dos personagens e uma aventura mais intimista são trocados pelo espetáculo.

Piratas do Caribe, e até mesmo Indiana Jones, não escaparam da armadilha. O último filme da trilogia de Verbinski culmina em uma batalha épica pelo controle dos mares – em outras palavras, do “mundo pirata” – no meio de um redemoinho gigantesco invocado pela deusa dos mares, Calypso. Em Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008)Harrison Ford entra em contato com alienígenas!

A graça de assistir um filme de aventura sempre foi o convite à dita aventura. A possibilidade de se perder em uma jornada divertida, explorando cavernas, templos antigos e castelos medievais. A chance de se imaginar lado a lado com seus heróis durante sua infância. A chance de ansiar por uma aventura emocionante que nos tirasse da passavidade mundo comum.

Filmes de super heróis são sempre bem vindos, mas quando conseguem trazer consigo um pouco de personalidade, como Deadpool, Guardiões da Galáxia, Pantera Negra ou Homem Aranha – do Tobey, claro. Nesse cenário atual, no qual as maiores bilheterias pertencem à franquias já consagradas ou filmes da Marvel e DC Comics, é difícil imaginar um estúdio disposto a se arriscar financeiramente com uma nova série de filmes originais.

Parafraseando Anthony Mackie, intérprete do Falcão, dos Vingadores: “as pessoas não pagam pra ver uma estrela de cinema, elas pagam pra ver os X-men”. Nessa época, nem um nome como o de Michael Fassbender consegue carregar espectadores o suficiente para um filme como Assassin’s Creed, que tinha o potencial de ser um novo marco nas adaptações de games e no possível revigoramento do gênero de aventura.

É a era dos super-heróis. Hora de esperar.

 

 

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